Há quase 30 anos, os alunos do Oswald enfrentam, no Ensino Médio, um desafio que muitos estudantes só vão conhecer no Ensino Superior: o Projeto Teses, que é desenvolvido junto às turmas do 2º ano do Ensino Médio e procura envolver os alunos na leitura, análise e produção de textos acadêmicos mais complexos, na construção de uma monografia sobre um tema de interesse. A professora de Psicologia e Sociologia do Oswald, Marcella Monteiro de Souza, conta nesta conversa um pouco sobre o projeto.

 

1) Nas conversas com os alunos e ex-alunos, percebemos que o Projeto Teses é um dos que mais impacta a vida na escola. Há quanto tempo ele existe e com qual objetivo ele foi pensado?
Marcella: O Projeto Teses foi criado no Oswald em 1988, com o intuito de proporcionar ao aluno a oportunidade de vivenciar um trabalho acadêmico que aliasse uma série de desafios formais e autorais. Um momento em que o estudante consiga se aprofundar conceitualmente em um assunto de sua escolha e interesse pessoal.

Quanto aos desafios formais, temos a leitura e análise de textos acadêmicos mais complexos, o aperfeiçoamento da capacidade de sintetizar, comparar e fazer dialogar o pensamento de vários autores, a escrita de um texto de maior extensão e a apresentação pública do trabalho perante uma banca. Quanto aos desafios autorais, temos a possibilidade de o aluno escolher a disciplina de seu próprio interesse, além da elaboração de um tema e uma questão de pesquisa.
Em sua essência, o Projeto não sofreu grandes alterações desde seu início, pois seus objetivos continuam alinhados com o estudante que queremos formar.

Podemos dizer, de maneira geral, que queremos formar um aluno que tenha domínio das ferramentas de investigação e de produção de conhecimento nas diversas áreas do saber; que seja capaz de posicionar-se frente aos desafios do mundo acadêmico e profissional, bem como em relação às questões culturais, sociais e políticas de maneira crítica e ética; e que aprenda a fazer escolhas e a reconhecer as implicações pessoais e coletivas de suas opções.

As áreas de pesquisa foram mudando seus recortes no decorrer da existência do Projeto na escola. Assim, disciplinas como “Cidades”, “História e Memória” e “Arte e Cultura” deram lugar a novas temáticas, como “Comunicação, Cultura e Tecnologia”, “Questões ambientais” e “Problemas Contemporâneos”.

Tais mudanças são fruto de transformações ocorridas tanto dentro do âmbito escolar quanto do universo social mais amplo, pois, assim como o texto elaborado pelos alunos, o Projeto é também uma espécie de organismo vivo, que está inserido em um contexto maior, afetando-o e sendo afetado por ele.

Uma alteração importante dos últimos anos foi o incremento da parceria com a disciplina de Língua Portuguesa. Atualmente, o professor de Língua Portuguesa acompanha o aluno mais de perto nesse processo, proporcionando suporte metodológico mais consistente. Com isso, os professores de Teses ficam mais livres para debruçarem-se prioritariamente sobre o conteúdo conceitual com os alunos.

2) Quais os eixos temáticos existentes e como o trabalho é escolhido e desenvolvido pelos alunos?
Na primeira aula do ano, os alunos são apresentados às disciplinas eletivas. Atualmente, são elas: “Psicologia Social” (Profª. Marcella); “Física e Tecnologia Moderna” (Prof. Jacó); “Ética” (Prof. Tiago); “Investigações Biológicas” (Profª. Helena); “Comunicação, Cultura e Tecnologia” (Prof. Amadeu); e “O papel das Instituições e Grupos Sociais” (prof. Tarso). A partir do contato inicial com a temática abordada por cada professor, o aluno deve escolher dois cursos (primeira e segunda opção) e justificar sua escolha por meio de um texto. Nós, professores, procuramos, na medida do possível, contemplar as primeiras opções do aluno, pois entendemos que o desejo do estudante tem participação central nessa empreitada que está prestes a embarcar.

Durante o primeiro semestre, as aulas são basicamente expositivas/dialogadas, nas quais a temática de cada curso é problematizada e discutida, oferecendo terreno para a escolha do tema da Tese a ser realizada.

A partir do segundo trimestre, são realizadas as orientações individuais, quando o aluno deve elaborar um plano de projeto de pesquisa e desenvolvê-lo ao longo dos meses seguintes. O recorte do tema costuma ser um grande desafio, uma vez que deve conceber um problema de pesquisa e, mais do que isso, abrir mão de diversos outros temas possíveis.

Vários desafios se apresentam em seguida: a necessidade de certa autonomia de pesquisa para o levantamento bibliográfico, leituras de qualidade (que envolvem a produção de paráfrases, resumos, ou seja, o aprimoramento e desenvolvimento de atitudes e procedimentos ligados ao trabalho de leitura e escrita), o diálogo com o professor (que exige um esforço de sistematização das dúvidas), a escrita do texto (que envolve organização própria, escrita autoral, linguagem que atenda a certa formalidade e rigor científico) e a sustentação das ideias em uma defesa pública.

A defesa, que costuma suscitar bastante apreensão entre os alunos, é um momento muito significativo e marcante do processo. Nunca vi um aluno que tenha se arrependido de apresentar sua Tese, embora tenha visto vários que, depois de assistirem a apresentação de seus colegas, arrependeram-se de não o ter feito.

3) Quais são os principais ganhos dos alunos nesse projeto? Você acompanha o desenvolvimento desses temas após a saída dos alunos do Oswald? Algum aluno já seguiu o projeto em sua vida profissional?
O Projeto Teses é um trabalho em que o processo é muito valorizado, trata-se de um empreendimento de porte inédito para os alunos e no qual fica muito nítido o que é a construção do conhecimento, pois o aluno vai percebendo a necessidade do cumprimento das etapas para a realização do produto final. Por solicitar um compromisso grande com o trabalho, ele fortalece atitudes frente ao conhecimento – persistência, esforço, concentração, tolerância à frustração – e também prepara para etapas futuras (nas universidades, livros didáticos serão substituídos por textos mais complexos de autores clássicos e será exigida a produção de textos mais autorais).

Há, então, dois ganhos de amadurecimento para o aluno: o intelectual, na medida em que amplia e aprofunda as competências relacionadas a pesquisa, desenvolve recursos metacognitivos, amplia e aprofunda as referências culturais do aluno, ajuda a valorizar o conhecimento como produção social e histórica, assim como forma fundamental de inserção no mundo; e o amadurecimento emocional, por ser um exercício de perseverança, tolerância à frustração, autonomia e reconhecimento de possibilidades, responsabilidades, recursos, limites, vontades e motivações frente ao interesse e sensibilidade em relação aos acontecimentos do mundo.
É bastante comum recebermos ex-alunos formados há dez ou quinze anos que trazem lembranças significativas de seu processo de confecção da Tese e salientam o quanto essa experiência foi importante para sua vivência universitária. Alguns deles são convidados a conversar com os alunos sobre sua própria experiência de escrita e defesa da monografia. Muitos ex-alunos, que estão terminando a universidade, voltam à escola querendo ser monitores no projeto, exercendo a função de coorientador juntamente ao professor. Eu mesma, nesses 13 anos como professora de Teses, tive sempre um ex-aluno cursando Psicologia na universidade como meu monitor, o que é sempre uma fonte diferente de aprendizado para eles e de grande ajuda para mim!

 

4) Como enxerga que esse projeto deverá evoluir daqui pra frente? Quais as alterações ou evoluções que você acha necessárias?
Devido a todas essas suas características, o Projeto é uma grande marca do 2º ano do Ensino Médio. Eu acredito que ele ainda terá uma grande vida útil dentro do Projeto Pedagógico da escola. Alguns aprimoramentos têm sido discutidos, dentre eles a criação de uma espécie de banca de qualificação no meio do ano letivo, a exposição do trabalho para alunos e professores de outras turmas da escola dentro do período escolar (além da defesa pública) e a publicação bianual dos melhores trabalhos apresentados, em uma coletânea.

Este texto foi desenvolvido a partir da contribuição da educadora Marcella Monteiro de Souza, professora de Psicologia do Ensino Médio do Oswald.