O aluno escritor

Como ele se desenvolve e se forma?

No colégio Oswald de Andrade, a produção de texto é desenvolvida desde o começo da escolarização. Antes de escreverem convencionalmente, na Educação Infantil, os alunos são convidados a produzir seus textos oralmente, ditando-os ao professor, que atua como escriba. O contato com bons textos traz as primeiras referências literárias às crianças, trabalhadas a partir da reescrita desses textos, mediada pelo professor. À medida que vão crescendo, são convidadas a outras atividades de escrita, como reelaborar trechos de textos; adotar diferentes posições como narradores, variando os pontos de vista de histórias e demais sequências narrativas; escrever breves poemas utilizando recursos sonoros como ritmo e rima. Seguindo esses passos, chegam ao texto autoral. A escola vai, assim, dando corpo e nome junto às investigações linguísticas do aluno nas práticas, às operações da escrita e estratégias para a produção de textos.

 

Desde a Educação Infantil, com diferentes enfoques e encaminhamentos, o Oswald trabalha com o planejamento da produção escrita, sobretudo a textualização, ou seja, a organização do discurso.As crianças já começam a trabalhar ali o que chamam de textos intermediários; por exemplo, listas de palavras elaboradas coletivamente para a descrição de um animal, e que os alunos podem utilizar – ler e consultar – na reescrita de um outro texto em que essa descrição seja cabível.

Esse exercício de reescrita, assim como o arsenal para realizá-lo, permanece e se intensifica no percurso escolar. No 1º ano do Ensino Médio, por exemplo, os alunos realizam um exercício de reescrita de cenas da obra Édipo Rei. A dificuldade de compreensão de um texto de mais de 2000 anos é contornada pela proposição da reescrita desse texto, visando o contexto atual. A experiência é muito rica e envolve os alunos em atividades complementares muitas vezes sugeridas por iniciativa própria deles. Uma delas, que já vivenciamos, foi a leitura dramática das cenas de Édipo que foram reescritas.

 

O envolvimento dos alunos com a produção de texto é uma marca no projeto oswaldiano. No Ensino Médio, são explorados até mesmo os aspecto psicanalíticos da escrita. Tamanha intersecção de temas e criações a partir de referências se conjugam para a construção de uma cultura de autoria. No Concurso de Declamação e em Saraus organizados em diferentes ocasiões na escola, são muitos os textos e poesias autorais, criando espaços entre os jovens para que possam ler, compartilhar e ser ouvidos.

E a gramática?

A gramática e a ortografia também são focos de trabalho em Língua Portuguesa, é claro. No entanto, não é possível trabalhar a gramática e a ortografia quando ainda não são compreensíveis para os alunos. O Oswald acredita que o desenvolvimento de um bom texto não deve ser desqualificado pelo erro ortográfico. Deslizes ortográficos são considerados e compreendidos nos diferentes contextos de exigência da correção escrita, monitorada com maior rigor em determinadas circulações da língua em que o padrão culto é imprescindível, assim como para a clareza de expressão que, para certos textos, são especialmente determinantes. A preocupação é permitir que os alunos percebam também esta questão, inserida em um contexto social no qual escrever utilizando o registro culto se faz fator de prestígio, inseparável das reflexões acerca das variedades da língua.

Desde o 1º ano do Ensino Fundamental I são observados e trabalhados aspectos dessa natureza, começando pela correspondência entre grafemas e fonemas. Existe sempre um primeiro trabalho de formação sobre os aspectos regulares da língua, enquanto aspectos irregulares (que fogem à correspondência grafo-fonológica, complexificando o sistema linguístico) são trabalhados gradativamente. Da mesma forma, desde quando produzem os textos tendo o professor como escriba, os alunos são convocados pelos educadores a observar aspectos relacionados, por exemplo, à flexão nominal ou verbal e suas concordâncias nos enunciados. Depois de grafar um texto ditado pelos alunos, o professor lê o que foi escrito; imediatamente, as crianças, com base em suas experiências com bons textos, apontam aspectos a serem melhorados e dão sugestões de sinônimos ou de repetições indesejáveis na escrita do texto.

À medida que crescem, os alunos participam de situações que os convidam a refletir sobre a linguagem e a língua, passando a dominar aspectos desse sistema. Os alunos do Oswald são constantemente convidados e estimulados a enfrentar estas e outras questões sobre o escrever, que são retomadas, ao longo do currículo, em crescimento espiral de complexidade, de modo a construir instrumentos para a produção de textos cada vez mais elaborados. A preocupação é permitir que os alunos participem do convívio social como cidadãos que se expressam e se posicionam no mundo, o que, necessariamente, demanda excelência no domínio dos recursos linguísticos que são mobilizados para tanto.

Este texto foi desenvolvido a partir da contribuição do Coordenador de Bibliotecas do Oswald, Eric Netto, e de seis educadores do Oswald, em uma roda de conversa sobre como formar novas gerações de apreciadores de Literatura e cidadãos capazes de ler e escrever textos críticos e com profundidade. Ana Paula Mateus, professora do 5º ano do Fundamental I; Evandro Rodrigues, professor de Língua Portuguesa do 8º e 9º ano do Fundamental II e de Produção de Textos do 1º ano do Ensino Médio; Janaína Arruda da Silva, professora no Ensino Médio de Literatura, Produção de Texto e Gramática; Natalia Correa Martins, professora do 1º ano do Fundamental I; Rosane Mingues Reinert, coordenadora pedagógica do Ciclo I no Fundamental I, e Vivian Gusmão, professora de Língua Portuguesa no 6º e 7º ano do Fundamental II.