Como formar novas gerações de apreciadores da Literatura e cidadãos capazes de ler e escrever textos críticos e com profundidade?

Desde a formação inicial, na Educação Infantil, o Oswald trabalha o processo de alfabetização a partir de três dimensões: o sujeito que aprende, o objeto de conhecimento (neste caso, a língua, expressa nos diversos textos em circulação) e as práticas sociais.

O Colégio entende o sujeito que aprende como um sujeito ativo, que em seu processo de conhecimento seja capaz de dotar sentidos aos saberes que constitui para si e para sua vida em sociedade; que seja, assim, autor de sua trajetória como aprendente. Esse conhecimento se dá tendo em vista a construção da própria aprendizagem a partir da intervenção concreta no meio social, por meio do qual é possível, ao aluno, compreender a si mesmo e ao outro como falante, escritor, leitor e ouvinte da língua. Já o objeto desse conhecimento, especificamente o sistema linguístico e de escrita, é entendido sempre em seus propósitos comunicativos reais, isto é, não realizamos o ensino da língua pela língua, mas sim no interior de situações efetivas de sua realização nos textos que circulam socialmente.

No processo de alfabetização no Oswald, esse objeto não é compreendido como um código a ser decifrado: o sistema linguístico é mais complexo do que isso. Ele não simplesmente representa a língua oral de forma equiparada – ou seja, não escrevemos como escutamos. Por ser um sistema complexo, com particularidades próprias – como ortografia, estilo e recursividade (o que escrevemos fica escrito e, assim, é passível de outros dispositivos de interpretação que diferem parcialmente da fala, além de trazer diferenças de monitoramento no uso da língua) – a escrita só pode ser construída se para tanto se incluir o sujeito – o aluno – nas práticas sociais em que a língua expressa sua concretude, por meio dos textos e da interação entre sujeitos.

As práticas são importantes dentro da escola por serem também importantes fora dela, participando de situações reais de uso da língua. Por isso, as crianças leem e escrevem com um propósito comunicativo social. Isso significa que as crianças participam, desde o início de sua formação, no processo de alfabetização, de atividades que se reproduzem na vida social. Vão, por exemplo, escrever um bilhete para notificar algo importante a outrem, ou ler um poema para participar de um sarau em que possam apreciar a literatura e com ela estabelecer envolvimento afetivo. Fora da escola, a leitura e a escrita vêm acompanhadas de um propósito; na concepção oswaldiana, as propostas de aprendizado estão da mesma forma atreladas a um propósito, pois são concebidas na homologia de processos que se dão na realidade fora da escola.

Esse exercício não se perde ao longo da escolaridade. No Ensino Fundamental II e Médio, a busca do propósito e do sujeito se mantém, e os textos ganham vida quando os alunos se encontram como sujeitos. Projetos como a criação de blogs, sites, livros, revistas ou, até mesmo, redes sociais, colocam os alunos do Fundamental II e Médio para produzir textos que mantenham o sentido de construção social da língua, algo que vinham empreendendo mais inicialmente no Ensino Fundamental I.

A língua também pode ser entendida, nessa mesma perspectiva, como objeto lúdico. Nos anos iniciais de escolarização, os textos são também objeto que transforma os sujeitos e, a partir das experiências de uso, os alunos começam a ser instrumentalizados para os textos do mundo letrado. O currículo da Educação Infantil compreende a língua como um objeto de afeto e de relação consigo e com o mundo, em que são oportunizadas práticas de linguagem como possibilidade de interação artística e apreciação estética, procurando formar crianças interessadas e sensíveis.

À medida que os alunos vão ficando mais velhos, as propostas vão sendo retomadas em novos horizontes e se ampliando em complexidade. As crianças ganham maior variedade nos instrumentos linguísticos de que fazem uso, passando a desenvolver atividades e a participar de experiências voltadas focalmente ao aprendizado da leitura e da escrita. Só então entram os aspectos técnicos da língua, quando entendem a importância desse momento comunicativo no qual vão acionar o sistema linguístico e de escrita também em sua variedade de prestígio ortográfico, para engendrar conexões de outra ordem, ampliar sua capacidade de clareza e expressividade verbal com que possam agir no mundo e construí-lo participativamente.

O papel da mediação: uma boa seleção de autores e textos

No Oswald, existe um cuidado na escolha dos autores e títulos que os alunos são orientados a ler, há uma intenção que sustenta essa seleção. Por vezes, essa intenção pode enveredar no estudo de um autor, ou de uma temática de vários autores, ou em um gênero literário. Essa intencionalidade ajuda na criação de um amplo repertório para os alunos.

A escola tem como proposta formar leitores, e não apenas pessoas que saibam ler. Por isso, no percurso escolar, os alunos têm contato com diversos gêneros e gerações literárias, sem se prender especificamente à literatura nacional ou aos cânones europeu e americano. Nos cursos, alunos de diversas faixas etárias são convidados a leituras de autores africanos, latinos, asiáticos, entre outras nacionalidades e origens, que participam do leque amplo de textos em que se formam leitores proficientes, sensíveis e críticos.

No exercício em busca de bons hábitos leitores, os alunos seguem realizando sistematicamente leituras coletivas – em voz alta para a turma -, da Educação Infantil até o Ensino Fundamental II. São chamados a pensar sobre as estratégias de entonação, ritmo e escuta do texto escrito lido; a pensar sobre como lêem, em que contextos e ambientes, seja na esfera coletiva, seja ainda no campo individual da leitura em silêncio. O intuito é formar uma comunidade leitora cujos hábitos de leitura tenham relevância pessoal e para o grupo, que sejam significativas e dotadas de uma experiência formadora real, motivo por que também exercitamos a releitura, a seleção de trechos de destaque, a busca por palavras no dicionário, os comentários sobre textos, as indicações de leitura etc. É possível perceber, coletivamente, nos textos, a multiplicidade de significados que por via da escrita são colocados em constante reelaboração e checagem, retomando os traços concretos sobre os quais se debruçam leitor e escritor, ao se apropriarem da ordem textual que os repertoria em seus enunciados.

Essa complexidade, dada na experiência da linguagem, só é formadora e plena quando conduzida por um mediador, alguém que olhe, observe, intervenha e proponha trajetórias junto ao aluno – no caso: o professor. Por isso, os educadores do Oswald se dedicam a posicionar a leitura e a escrita como experiência para os alunos, que aprendem também a mediar emoções e a se lançarem numa jornada autoral de autoconhecimento, que os textos despertam.

Este texto foi desenvolvido a partir da contribuição do Coordenador de Bibliotecas do Oswald, Eric Netto e de seis educadores do colégio, em uma roda de conversa sobre como formar novas gerações de apreciadores de Literatura e cidadãos capazes de ler e escrever textos críticos e com profundidade. Ana Paula Mateus, professora do 5º ano do Fundamental I; Evandro Rodrigues, professor de Língua Portuguesa dos 8º e 9º anos do Fundamental II e de Produção de Textos do 1º ano do Ensino Médio; Janaína Arruda da Silva, professora no Ensino Médio de Literatura, Produção de Texto e Gramática; Natalia Correa Martins, professora do 1º ano do Fundamental I; Rosane Mingues Reinert, coordenadora pedagógica do Ciclo I no Fundamental I, e Vivian Gusmão, professora de Língua Portuguesa nos 6º e 7º anos do Fundamental II.